O homem que viaja nos corredores

Um homem não é só aquilo que faz. Um homem também é aquilo que não fez e aquilo que ele não permitiu que lhe fizessem. Revejo agora este homem seco, olhos cortados em bisel, cara fechada. Quando sorri, manifesta-se-lhe uma iluminação feliz.
Vem a entrar no Colégio. Cumprimenta quem por ele passa, entra no gabinete e folheia o jornal pausadamente. O homem é um homem pausado. É um homem que recusa despovoar-se. O homem pausado gosta de falar de pessoas e de sobre pessoas escrever.
É uma época difícil e um tempo sem piedade. Um tempo imoral, que exige obediências e servidão. O homem pausado, de passo puxado pelas pernas e olhar severo sobre o óculo pedagógico de cada sala de aula, activa nele a moral do trabalho e a ética da esperança.
Estou em viagem, algures entre o mirante e a sala 9 e vejo o homem seco e grave seguir por outro corredor. Vai cumprir a sua tarefa, continuar um destino: não ser neutro. Por vezes, neste ofício solitário, o homem diverte-se. Por vezes, nessa profissão, aborrece-se. Mas o homem que viaja nos corredores vai rematando a vida num arredondar de ideias no fim do dia. Concordamos com algumas.
O homem vai tão mergulhado em pensamentos que ninguém imagina que, lá dentro, nele, no lá dentro dele, se agitam ecos nostálgicos e porventura obsessivos. Saúdo-o com um gesto. O homem olhou para o homem que, num outro corredor, o saúda, e sorri aquele sorriso feliz de iluminação feliz. Podia, agora, dizer-lhe uma frase, soltar uma interjeição, berrar um vocativo. Não é preciso: basta o gesto. Os dois homens sabem isso: bastam os gestos; um gesto.
Falam dele, por aqui. Ah!, penso agora, mãos nos bolsos e corredor fora, e a olhá-lo a subir as escadas a caminho do auditório, como foi possível que este homem - e outros com ele - tivesse acumulado energia suficiente para enfrentar a consolidação destes corredores, as invejas, as críticas justas e as menos justas; como foi possível?
Passam duas horas. Estou sentado. Aturdido. Levanto-me e bato palmas, imitando quem já o faz, nó na garganta, sei lá o que está a acontecer-me. Estou a bater palmas ao homem que viaja nos corredores. Talvez seja a isto que se chama emoção?
E lá estou eu ao telefone, uns dias depois, e a olhar este homem seco, olhos cortados em bisel, cara fechada. O homem pára, sorri-me. O homem olha-me, encolhe os ombros. Como se me estivesse a dizer: são coisas que acontecem.
Não se exilou, não se refugiou, não fugiu. Deslocou-se, apenas, para outro lugar, percorrendo outros corredores; bem vivo.
Volte sempre.
Publicada em Eventos em July 2nd, 2009 por andre_moreira | | 2 Comentários
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