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Perdoem-me o desabafo…

Não tem sido fácil. Sinto uma clara sensação de amputação. Arrancaram-me, com pouco tempo de anestesia, parte de um membro importante, para não mais ela voltar. Embora consciente e alertada para a sua perda, a minha mente recusa-se a deixá-la partir e, por isso, ainda que incompleto, sinto-me uno… Às vezes sinto-a fria e, com o instintivo aconchego, reapercebo-me da sua perda. Outras sinto o conforto do seu apoio quando penso num passo mais largo mas, ao avançar, coxeio e tenho que me concentrar mais para que ninguém se aperceba da falta que ela me faz… Algumas vezes ainda acordo à noite, sentindo a estranheza da sua partida. Neste período, em que a cicatriz teima em sangrar, qualquer pequeno movimento provoca dor e irritação.

O Dr. Diógenes faleceu. Não seria intelectualmente honesto da minha parte falar dele como homem bonzinho e simpático. Muitas vezes não era bonzinho nem simpático. Não era um homem de trato fácil nem imediato. Muito menos consensual. Lembro o tempo em que eu receava a sua abordagem. Era um homem duro. Nalgumas vezes injusto e alheio a contextos. Noutras, a sua ira tatuava nas pessoas uma imagem de austeridade que dificilmente se esquecia… Ora inflexível, ora influenciável…

Levei algum tempo a interpretar o seu perfil quase monocromático. A análise imediata e superficial revelava-me apenas uma súmula de aparentes traços de mau feitio. Quando comecei a prestar-lhe mais atenção…

…apercebi-me do quão errado eu estava.

O Dr. Diógenes era escravo dos seus próprios sonhos. Tudo o que não fosse avançar na construção de um amanhã maior e mais justo para os miúdos, era secundário. Talvez até dispensável. E se não se resolvia a bem, ía a mal. Que importava se se tinha que reconstruir a parede X da sala Y pela terceira vez, voltando à forma da primeira, se na noite anterior os miúdos da Obra, no Porto, tinham passado frio, porque tinha caído mais um pedaço de tecto do seu quarto? Era essa angústia latente que o atormentava - era o terreno perdido para a inoperância, para a burocracia, para a indiferença -disfarçada em sorrisos simpáticos e complacentes - que o irritava…

A criação, ampliação e reestruturação de infraestruturas não eram uma resposta à necessidade de satisfazer o seu ego ou de deixar obra para o seu curriculum moral - quem conheceu o Dr. Diógenes sabe que essas infraestruturas só faziam sentido se e quando fossem úteis, enquanto instrumentos promotores de bem-estar social. Basta olhar à nossa volta para nos apercebemos do alcance e das consequências sociais da sua visão. São pelo menos duas gerações de PESSOAS que tiveram um acesso mais fácil à Educação devido à ampliação do Colégio Frei Gil. Quantos de nós tivemos mais oportunidades, devido ao facto de termos usufruído desse acesso mais aprazível? E quantos miúdos já escaparam a uma vida mais agreste graças ao acolhimento que tiveram na Obra Frei Gil?

A sua intervenção social é das mais importantes da região nos últimos tempos. Isso é factual e incontornável. Por isso, a sua homenagem não pode limitar-se apenas ao simples cumprimento de uma obrigação. Para o homenagear condignamente temos que continuar a sua luta. Dar o seu nome a uma rua ou atribuir-lhe uma Medalha de Mérito Municipal só farão sentido se esses actos forem uma marca indelével contra a teimosia do esquecimento, num gesto colectivo de assunção da urgência para a continuidade do seu trabalho. Deixar a sua memória ao sabor do tempo, assim, sem mais, é ignorar a importância do seu legado social - é perder uma Referência, daquelas que tanta falta fazem…

A morte do Dr. Diógenes marca o fim de uma era para a Obra Frei Gil. Cabe aos actuais Directores a dura - mas indispensável - tarefa de prosseguir. Se forem Homens dignos, trabalhadores, perseverantes, altruístas e firmes o suficiente, granjearão o respeito e o apoio da comunidade. Se deixarem entrar oportunistas, criadores de falsas soluções, a Obra definhará sob a sua mesquinhez e interesses pessoais. Temos a obrigação de estar atentos e de ter no horizonte apenas os interesses da Obra, enquanto promotora de Vida.

Por aqui, no IPSB, é imperativo que nos apercebamos também que houve uma era que terminou. Precisamos, mais que nunca, de impulso. Precisamos de experiência, carácter, firmeza, altruísmo, profissionalismo e capacidade de trabalho. Precisamos de conhecimento factual, de pragmatismo e de alguma irreverência. Precisamos de ouvir SIM, se queremos  a Promoção Social Colectiva, e de ouvir NÃO se se pretende atender à exclusividade dos interesses pessoais. Precisamos de visão. Fingir que não, é autismo - é adiar e comprometer o futuro. Os oportunistas podem ficar à porta.Temos o dever de continuar a criar lastro para a Sustentabilidade e tudo o que ela implica. Só assim poderemos homenagear convenientemente o Dr. Diógenes. Foi assim que ele próprio homenageou e manteve viva a chama de Frei Gil.

…Resta-me a inquietude de pensar que, apesar de ter mudado para melhor tantas vidas, o Dr. Diógenes terá partido triste, porque não conseguiu concretizar o seu sonho de construir mais uma casa, a da Amoreira da Gândara, para apoiar jovens em risco… Se bem o conheci, a esta hora ele estará a discutir veementemente com alguém por causa disso…E ai de quem o contradisser!…

Publicada em Escola em November 22nd, 2009 por Telmo Domingues | |

2 Responses to ' Perdoem-me o desabafo… '

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  1. andre_moreira said,

    on November 23rd, 2009 at 9:33 am

    Não consigo evitar algum sentido de menor legitimidade quando se fala do Dr. Diógenes, do Colégio e da obra feita - se calhar por estar cá há menos tempo e porque a diferença “de anos de casa” que temos entre nós será sempre a mesma… mas os 9 anos passados nestes corredores percorridos pelo “chefe” também já entranharam em mim a Obra e o Colégio Frei Gil e a urgência de os perpetuar.
    Estou contigo. Estou com todos nós. Continuo a achar que o bom historiador escreve o passado criticando o presente e projectando o futuro. E toda a História que vale é a do futuro.
    É I, é P, é IPSB!

  2. Telmo Domingues said,

    on November 23rd, 2009 at 2:09 pm

    E será o “nº de anos de casa” que importa aqui? Ou a intensidade/entrega “à casa”, independentemente do número de anos? Esse assunto tem de ser posto de lado, em prol da Sustentabilidade;-). A antiguidade só é um posto se estivermos a falar de múmias - aí sim, a idade conta! Neste caso importa angariar vontades e capacidades de criar, de produzir e unir…

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