Selecção de Talentos no Desporto
Pelo Professor Ivan Faria
A primeira questão que se coloca no contexto da Detecção e Selecção de Talentos, é pois a de identificar o que é um talento desportivo.
O projecto de identificar e detectar talentos não é uma tarefa fácil. Um tal programa exige “um amplo conhecimento de potenciais disciplinas da ciência do desporto, um conhecimento profundo das exigências actuais e antecipadas das tarefas desportivas em análise e um desejo claro de desenvolver o programa a longo prazo” (Salmela & Reginier 1983).
Centra-se pois na escolha dos praticantes, um dos mais importantes papéis dos treinadores, que promovem o acompanhamento desse trajecto de formação a longo prazo.
Para Brown (2001) “as características físicas dos talentos são mais importantes que os níveis que possam apresentar, e identifica os atributos físicos como sejam: envergadura, velocidade, velocidade de execução, força, potência, agilidade, flexibilidade, coordenação, capacidade aeróbia e amplitude visual”.
Contudo, a este propósito de identificação de jovens atletas, Reily, Bangsbo e tal. (2000), frisam que “no presente os perfis antropométricos e fisiológicos são alvos preferenciais, enquanto a ênfase deveria estar nas habilidades técnicas e na coesão de grupo”.
O que é um talento?
O tema da detecção de talentos tem sido desde os princípios do século XX, alvo de diversos estudos. Nas últimas décadas acentuou-se a investigação sobre esta temática pois os trabalhos sobre a detecção de futuras elites desportivas têm sido em maior número, mais exaustivos e elaborados.
Numa primeira fase a delimitação conceptual prestou-se a algumas confusões, nomeadamente na própria origem dos termos, onde “dom natural”, “talento”, “super dotado”, eram utilizados sem grande rigor.
Segundo a maioria dos especialistas o “dom natural” ou “giftedness” está mais próximo da habilidade de carácter intelectual, ou seja capacidade natural, que se manifesta superiormente em forma de aptidão, enquanto que “talento” está conectado com o desenvolvimento de habilidades específicas.
No geral “giftedness” está associado á competência enquanto que o “talento” está associado à prestação.
Para Hahn (1987) o talento é uma excepção, entre a maior parte dos indivíduos, que ainda não tem meios de expressar os seus dons, enquanto talento desportivo é aquele que possui predisposições para chegar às prestações acima do normal.
O consenso sobre a definição de talento desportivo também teve a sua evolução e já é possível definir com mais clareza para a área do desporto este conceito:
“Talento desportivo não é uma personagem, deve constituir-se no produto de um completo e árduo processo que tem as suas bases na educação física pré-escolar e que ininterruptamente continua com as restantes etapas ou fases do ciclo ontogénico do ser humano”. (Corvo 1998)
Talentos desportivos
“Um grande desportista é, talvez, uma raridade igual à de um grande músico, um grande artista ou um grande pintor. Em cada caso que se perca quem haveria podido ser um grande desportista, mas não chegou a sê-lo, é algo irreparável”.
No desporto, podem ser considerados talentos, “os indivíduos com características particulares do tipo genético, antropométrico, físico, psicológico, motor e intelectual que permitem assegurar que esse sujeito pode ser capaz de alcançar altos rendimentos” (adaptado de Garcia 2003).
O potencial do organismo humano desenvolve-se, sobretudo, mediante a contínua interacção entre a predisposição hereditária e a solicitação do ambiente circundante.
O talento deve pois possuir, indubitavelmente, um determinado perfil genético capaz de ser potencializado pelo envolvimento familiar e social (o que inclui o próprio processo de treino desportivo, formal ou informal).
Perfil de Talento
Mas qual é o perfil desejado de um talento futebolístico?
Em primeiro lugar, há que procurar identificar os indicadores e factores que podem conduzir a elevadas prestações desportivas, bem como também a sua relação interdependente e hierárquica.
Na prática, são os detentores de determinado perfil prenunciador do carácter excepcional de um conjunto de capacidades que são considerados talentos, sendo objecto da procura de todos os treinadores, pois viabilizam um pressuposto fundamental, o da rentabilização do treino desportivo, e por conseguinte a exteriorização das boas prestações desportivas e a certeza de uma via de eleição.
Selecção no desporto
É por este motivo que Maia (1994), afirma uma visão coerente e integrada da selecção do desporto deve assentar numa abordagem do tipo antropobiológico que estabeleça pontes de ligação e referência deste processo particular, com o processo de aplicação generalizada – a selecção natural – que confere primazia à lei do mais forte, do mais apto, daquele que revela maiores e melhores condições adaptativas ao postulado implacável da competição”.
Esta “selecção natural” dos mais aptos num determinado momento, constitui a única via da maioria dos processos de promoção de talentos. Contudo, para além de um conjunto importante de limitações que expomos seguidamente, depende em larga medida do acesso à prática desportiva que cada criança e jovem é capaz “naturalmente” de obter (por exemplo, proximidade a instalações desportivas), bem como das particularidades específicas do processo maturacional de cada indivíduo.
Limitações da selecção natural
A selecção natural, enquanto sistema de detecção de talentos faz emergir os que melhor rendimento apresentam, que irão constituir após as diversas etapas a elite desportiva. Este sistema apresenta necessariamente algumas desvantagens tais como:
a) O acaso tem um substancial “peso” na selecção de futuras elites desportivas;
b) Não valoriza o nível de desenvolvimento do jovem praticante, pelo que não ajusta o nível das cargas nem o nível de treino;
c) Não discrimina as aptidões que potencialmente são orientadoras para a selecção das respectivas modalidades;
d) Inexistência de avaliação criteriosa no sentido de adequar o potencial do atleta a um percurso de excelência;
e) Restringe praticamente às competições os momentos da selecção;
f) O tempo para chegar à etapa do alto rendimento, pode ser demasiado longo.
Imagem adaptada de: http://superbodysuperbrainblog.wordpress.com/2010/01/08/2010-fitness-trends-american-college-sports-of-medicine-publishes-fitness-trends-for-2010-strenght-training-is-number-1-pilates-number-9-and-yoga-number-14/
Publicada em Desporto em May 28th, 2010 por Telmo Domingues | |
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